Lançada pela Wikimedia Brasil, publicação agrega relatos de profissionais de educação, cultura e projetos colaborativos em iniciativas inspiradoras que podem ser replicadas
Na última quinta-feira (5), a Wikimedia Brasil (WMB) reuniu os organizadores e parte dos autores para o lançamento do livro “A Wikimedia no Brasil: o poder e os desafios do conhecimento livre”. Idealizado no fim de 2023, a obra, editada pela EDUFBA (Editora da Universidade Federal da Bahia), passa pela história do movimento wikimedista no país, e chega no mesmo momento em que a Wikipédia completa 25 anos de existência.
Em transmissão ao vivo feita no YouTube da WMB, Amanda Jurno, uma das organizadoras, descreveu o livro como “uma fotografia tirada de frente ao espelho, refletindo as suas autoras e autores em um congelamento incompleto do presente à época em que foi materializado”. Ela ressaltou que, em um movimento tão dinâmico e com tantas mudanças rápidas no contexto da internet, como a popularização das inteligências artificiais, é difícil retratar todo o contexto da Wikimedia no Brasil.
Para João Alexandre Peschanski, o co-organizador do livro, a obra reflete “o ethos da Wikimedia e dos seus aliados na defesa dos direitos digitais e do conhecimento livre”. Isso porque ela é um recurso educacional aberto, está disponível em licença livre, teve uma construção coletiva, é um estímulo à ciência aberta e é crítica do próprio movimento, refletindo desafios e novas perspectivas possíveis.
Dividida em três eixos temáticos, a obra conta com quinze textos que falam sobre a comunidade wikimedista no país, as atividades envolvendo educação e práticas de ciência aberta e as parcerias com foco cultural, com o envolvimento de museus, institutos e bibliotecas, por exemplo.
Falando sobre o aspecto cultural, Stela Madruga, bibliotecária no Instituto de Matemática e Estatística da USP e uma das autoras do livro, comentou a importância de instituições culturais irem além dos seus espaços físicos e explorarem o mundo digital para divulgar seus acervos de forma livre e sem restrições de softwares, empresas ou conglomerados fechados: “o ecossistema Wikimedia foi a ponte que nos permitiu democratizar as informações que antes ficavam restritas aos muros da universidade. E aí a gente dá visibilidade realmente ao que é produzido e preservado”, relatou Stela.
Em um momento em que a desinformação continua ganhando força, a bibliotecária do IME falou como é importante ver “a informação realmente como uma ferramenta de resistência. E a Wikipédia entra como uma ferramenta de luta. Então, diferente daquelas plataformas que todo mundo acessa, que parecem que são gratuitas, mas que visam lucro e manipulam algoritmos, a Wikimedia, o espaço da Wikimedia, os projetos da Wikimedia se tornam o espaço de construção baseado em evidências e fontes revisadas”. Para ela, as instituições culturais têm papel importante para oferecer recursos educacionais de pesquisa, leitura e escrita para a construção deste conhecimento.
Já Flávia Varella, professora de história na UFSC, e Guilherme Altmayer, professor de design na UERJ, falaram sobre os benefícios para professores e estudantes ao usarem a Wikimedia dentro e fora da sala de aula.
Em seu projeto Mais Teoria da História na Wiki, Flávia notou o sentimento de recompensa, prazer e de dever cumprido dos participantes ao adicionarem conteúdo de qualidade na enciclopédia. Este também é um trabalho que envolve muita literacia digital: “como distinguir um bom texto? Quais são os elementos? Quais são os recursos que nós temos? Então, trabalhar também com esses projetos que envolvem edição de verbete, eles são excelentes para trabalhar fundamentos do conhecimento científico. Como [se faz] essa busca por uma informação de qualidade e também […] como saber passar esse conhecimento que você adquiriu para alguém?”, pontuou a professora.
Enquanto isso, Guilherme, que desenvolve o projeto Wikidesign, enxerga nas plataformas Wiki uma flexibilidade e possibilidade de agrupar atividades de pesquisa, ensino e extensão que têm impacto social imediato. Para ele, “no âmbito educacional, no âmbito da academia, o que interessa é o processo. O que levou, como os alunos passaram esses quatro meses treinando as ferramentas, entendendo esse lugar como um objeto pedagógico? Porque é um lugar de disputa, é um lugar que precisa preencher lacunas, que vai entendendo, a partir das pesquisas, como fomentar práticas de visibilidade – e a gente está falando aqui de pessoas LGBT, de mulheres, de pessoas negras, indígenas, tudo isso que a própria Wikimedia Brasil vem fazendo intensamente ao longo dos últimos anos de uma forma muito interessante, muito positiva. Como que o bom uso dessas ferramentas podem proporcionar o estímulo à geração de conteúdos que a gente sabe que vão ser relevantes?”, questionou.
No âmbito da comunidade de wikimedistas no Brasil, Isabela Tosta, mestranda no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da UNICAMP e membra da WMB desde 2025, falou sobre o fato do livro ser uma forma de registrar projetos que acontecem no contexto da Wikimedia (mas que são pouco registrados), e isso ajudará a fomentar e fortalecer a comunidade brasileira de editores. Para Isabela, estes projetos envolvendo a Wiki abrem caminhos, geram empoderamento e criam momentos de aprendizagem coletiva, algo que reflete sua própria história no movimento: “eu comecei com o projeto de extensão na Universidade Federal [de Santa Catarina]. Depois eu fui fazer uma bolsa de mídia ciência [no CEPID NeuroMat] e entrei em um outro espaço acadêmico diferente daquele inicial em que eu estava. E hoje eu consigo pensar em projetos próprios que continuam tendo essa demanda por criatividade, que é o caso do projeto Humanidata, que eu toco junto com a Ana Carla e com o Pedro Terres, que é um projeto de divulgação científica. E que é um projeto de divulgação científica que não estaria acontecendo se não fosse o projeto de extensão lá no começo. Então, para mim, ter nos espaços acadêmicos essa faísca do movimento Wikimedia, ela é um sopro de renovação para as pessoas pensarem como que elas querem compartilhar o conhecimento e ao mesmo tempo se apropriar daquele conhecimento”, relatou.
Apesar da maior parte dos editores da Wikipédia a nível global serem homens (cerca de 75% no mundo e no Brasil), a maior parte dos 40 autores do livro “A Wikimedia no Brasil” são mulheres. Para Amanda, “esse dado reflete as conexões e o relacionamento que a Wikimedia Brasil tem mantido com articulações e iniciativas wikimedistas, mas também a crescente mobilização das mulheres no movimento”.
Uma dessas autoras foi Andi Inácio, doutoranda de história na UFF e integrante da WMB e da rede WikiMulheres+. Ela comentou que o fortalecimento do movimento de mulheres na Wiki está diretamente ligado a um efeito borboleta dos projetos que vieram antes, como o Mais Teoria da História na Wiki. No livro, segundo Andi, foi possível “historicizar o trabalho pioneiro de mulheres no movimento Wikimedia, que foi desenvolvido ao longo da última década”, e, a partir disso, dar visibilidade ao trabalho dessas pessoas, além de “compreender os desafios, as soluções que foram encontradas no passado e a gente também situar isso no nosso presente e entender as nossas próprias agências nessa história do movimento de mulheres wikimedistas.”
Para Amanda Jurno, “a Wikimedia é uma frente de resistência digital sustentada por sua comunidade. Defendemos uma internet do bem, licenças livres e a participação ativa nos espaços de disputa de governança da internet. Nos comprometemos com conhecimento verificável, com curadoria colaborativa e ponto de vista neutro”. No entanto, ao final do evento, ela lançou o questionamento: “como continuar construindo esse bem público digital diante de todos esses desafios atuais apresentados pela lógica da tecnologia e da comunicação? Esta é uma questão em constante debate na comunidade wikimedista brasileira e, quem sabe, tópico de um próximo livro”, refletiu.

