Wikipédia 25 anos: Produzindo uma história pública

Conheça a história de pessoas que editam a Wikipédia

Pollyana Feitosa, CC BY 4.0

Elisa Frühauf Garcia é professora de história da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenadora do laboratório Mulheres Indígenas na Wikipédia. Começou a editar a plataforma em 2020, no contexto de pandemia, quando as aulas da universidade passaram para o ambiente digital. Achou que a escrita da história para o grande público, através de um dos dez sites mais acessados do mundo, pudesse ser uma experiência positiva para os estudantes, que estavam desmotivados dentro do contexto social vivido naquela época. 

Com a volta das aulas presenciais, considerou encerrar as atividades na plataforma, mas foi estimulada a continuar a pedido dos alunos. O projeto ganhou corpo, nome e hoje é o principal motivo de boa parte dos eventos acadêmicos que ela participa; sendo reconhecido como uma iniciativa universitária de divulgação científica na internet. 

Em 2024, foi o primeiro laboratório da área de história a ser catalogado como uma iniciativa da tecnologia social – uma ação da UFF que lista projetos de tecnologia com potencial para responder a um problema da sociedade de forma prática. Além disso, o laboratório foi convidado a integrar o INCT (Instituto Nacional de Tecnologia), uma iniciativa interdisciplinar que busca a solução de problemas através do conhecimento tecnológico.

A pesquisa desenvolvida pelo projeto é localizada e voltada para temáticas indígenas ligadas à cidade de Niterói, onde a universidade se encontra e a história dos povos originários é enorme. Atualmente, o conjunto de artigos melhorados ou criados pelo laboratório somam mais de meio milhão de visualizações. Dentre eles, a professora destaca quatro como mais relevantes para o desenvolvimento de sua visão sobre a Wikipédia: 

1. A melhoria do verbete de Arariboia, através do qual promoveram uma mudança na narrativa sobre essa liderança indígena. 

Através do laboratório, os estudantes foram provocados a transformar o artigo de uma concepção passadista, para uma perspectiva de memória viva, que evocasse a importância dessa figura na contemporaneidade. 

2. A criação do artigo de Damiana da Cunha, mulher que foi uma liderança indígena do século XVIII. 

Nele, os estudantes tiveram pela primeira vez a experiência de disputa para a permanência do conteúdo na plataforma, quando tiveram que comprovar a notoriedade da biografada. Para Elisa, esse foi um processo de aprendizado sobre a importância de um debate qualificado e de artigos construídos com uma ampla quantidade de referências confiáveis e independentes.

3. A criação do verbete da artista, professora e liderança indígena Glicéria Tupinambá.

Ao lidar com o processo de criação de um verbete biográfico de uma pessoa indígena viva, os alunos tiveram a oportunidade de discutir a ética por trás do trabalho que realizam. Isto porque, não é necessário pedir autorização para criar um verbete; mas, pela perspectiva da professora, quando essa ação é relacionada aos povos originários, pode dar margem para mais uma violência – um não convite à participação. Por esse motivo, tiveram a oportunidade de convidar Glicéria para uma leitura prévia do artigo e contribuição ativa para a melhora dele. 

Esse verbete já foi traduzido para o inglês através de uma disciplina de história da arte dentro de uma universidade nos Estados Unidos, o que para a professora é estimulante; pois é um conteúdo brasileiro indo para fora, e não o oposto.

4. A melhoria do artigo sobre o manto Tupinambá,  uma vestimenta sagrada para alguns povos indígenas que tinha, anteriormente, apenas um parágrafo na plataforma. A melhoria deste verbete foi feita dentro do contexto de devolução de um dos mantos que estava na Dinamarca para o Museu Nacional do Rio de Janeiro em 2024. 

O compartilhamento da informação construída dentro do ambiente universitário com o grande público, que possibilita a devolução do investimento público para a população, não é o único ponto positivo da intervenção de alunos na plataforma. Para Elisa, “ao editar verbetes sobre mulheres indígenas, povos originários e patrimônio cultural brasileiro, os estudantes desenvolvem não apenas habilidades de pesquisa e escrita, mas também uma consciência crítica sobre ética, representatividade e responsabilidade social. Essa experiência amplia a compreensão sobre os processos de produção e circulação da informação, ao mesmo tempo em que combate desigualdades epistêmicas históricas e estimula reflexões sobre o papel das tecnologias na formação do saber contemporâneo.”

Em comemoração aos 25 anos da Wikipédia convidamos editores e editoras para compartilhar suas histórias de atuação na plataforma conosco. Assim como com a professora Elisa, a série Conheça a história de pessoas que editam a Wikipédia trará a vivência de usuário(a)s novo(a)s, antigo(a)s e de diferentes áreas da atuação. O que ele(a)s têm em comum é a dedicação para tornar o conhecimento disponível na internet em português cada vez mais confiável, diverso e livre.

Acompanhe!