Entre os dias 30 de julho e 01 de agosto de 2026, São Paulo recebeu o 21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, organizado pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo). O evento contou com centenas de jornalistas, pesquisadores e membros da sociedade civil em 110 atividades ao longo dos três dias.
Com foco em jornalismo e comunicação, muitas pautas e reflexões apresentadas durante o evento apresentaram convergências com o Movimento Wikimedia. Pensando nisso, a Wikimedia Brasil participou de cinco mesas que debateram temas como democracia, comunicação de interesse público, desinformação, mudanças climáticas, corrupção, big techs, inteligência artificial e checagem de informações. A seguir, um breve resumo de ideias compartilhadas durante o Congresso que se conectam com a Wiki.
Big techs
Daiene Mendes (diretora programática no Fundo de Apoio ao Jornalismo) e Paula Miraglia (CEO da Momentum Journalism & Tech) destacaram o papel que as redes sociais tiveram na democratização no mercado da comunicação no Brasil, oferecendo um espaço para que novos atores tivessem voz. Com o passar do tempo, no entanto, esse espaço digital deixou de significar liberdade e conexão, e passou a representar o interesse das grandes empresas.
Mendes também comentou que a produção intelectual publicada nas redes sociais muitas vezes fica datada e fadada ao esquecimento por conta da lógica das plataformas. Para Miraglia, o jornalismo precisa estar onde as pessoas estão, mas não pode construir toda essa infraestrutura nas plataformas de terceiros onde não se tem agência sobre as decisões.

Desinformação
Durante sua fala, Marcela Maria Martins (coordenadora de programas em Climate Tracker América Latina) destacou as táticas utilizadas pela indústria da desinformação. Elas incluem: falas de pessoas importantes, fabricação de controvérsia, deslegitimação, ataque a cientistas, aparente independência na produção do conteúdo, utilização de dados e informações verídicas fora de contexto para criar novas narrativas, o uso de informações ultrapassadas, mudar o foco para outras questões, apresentar falsas soluções e o patrocínio de pesquisas e conteúdos.
As táticas da indústria da desinformação funcionam, segundo Martins, pois lidam com o viés de confirmação, gatilhos emocionais, pertencimento a um grupo, excesso de confiança e a lógica da algoritmização.
O Climate Tracker verificou que 27% das notícias no Brasil sobre transição energética contém desinformação. Já Karla Mendes (repórter investigativa da Mongabay), em suas pesquisas para reportagem sobre a venda e consumo de carne de tubarão, observou que especialistas em nutrição e meio ambiente, inclusive dentro de secretarias do governo, não sabiam que esse tipo de carne era vendida como cação. Isso mostra como a disseminação de uma desinformação nem sempre é proposital e pode estar presente em vários lugares, seja em materiais escolares, em agências do governo, nas redes sociais, na inteligência artificial ou na própria imprensa.
Para Daniel Bramatti (editor do Estadão Verifica), a desinformação se espalha de forma mais acintosa onde não há informações de qualidade.

Inteligência artificial
Existem vários paralelos possíveis de se traçar entre os impactos da inteligência artificial para o jornalismo e a Wikipédia. A partir do ponto de vista do jornalismo, Ingrid Fernandes (gerente de tecnologia no Instituto AzMina) destacou que a IA gerou queda no tráfego dos veículos, afetou o pensamento crítico do público, propagou circuítos de desinformação e mudou o fluxo de trabalho dos comunicadores.
Para Paula Miraglia, hoje o consumo não é mais de notícias, e sim de respostas. Por isso, a relação não se dá mais com o jornalismo, mas com a IA. Nessa nova lógica, segundo Miraglia, o jornalismo pode agregar valor para as empresas de IA. No mesmo sentido, podemos dizer que as plataformas Wikimedia também se mostram essenciais para esses sistemas.
A questão que fica, tanto para o jornalismo quanto para a Wikimedia, é como pensar o direito e a monetização sobre esse conteúdo, pois as empresas de inteligência artificial extraem um material pronto (muitas vezes, sem citar a fonte), lucram com ele e não oferecem nenhuma contrapartida.
Como apontaram Karina Santos (coordenadora de Democracia e Tecnologia do ITS) e Ben-Hur Correia (coordenador de IA de jornalismo do Grupo Globo e pesquisador do Centro de Estratégia e Inovação da Coppead/UFRJ), a inteligência artificial pode ser usada de forma ética, responsável e impactante. No caso do jornalismo, ela pode ajudar a agilizar processos de apuração e produção, mas não deve substituir, para Correia, o julgamento editorial, a realização de entrevistas ou a construção de fontes.

A experiência Wikimedia
No Movimento Wikimedia, alguns desses pontos trazidos durante o evento também têm sido alvo de reflexões e ações por parte de quem edita a Wikipédia e os demais projetos.
A estratégia sobre inteligência artificial na Wikipédia, por exemplo, é focada no humano em primeiro lugar, por isso o conteúdo não é automatizado. No entanto, robôs são utilizados para a verificação de vandalismos e a automatização de tarefas mecânicas e repetitivas, dando mais tempo para os editores trabalharem nos verbetes em si.
Com o objetivo de reduzir a propagação de informações falsas, a comunidade também tem ampliado a criação de recursos educacionais e técnicos, desde materiais sobre como encontrar fontes confiáveis de informação até bots para a checagem de vandalismos. A Wikimedia Brasil, por exemplo, fez nos últimos anos eventos e parcerias para fortalecer a integridade da informação sobre variados temas.
“Nesse sentido, a Wikipédia se alia a outras esferas da sociedade, como a difusão científica e o próprio jornalismo, para garantir que as pessoas tenham informações de qualidade de forma livre e acessível”, afirmou Marília Rocha, gestora de Comunicação da Wikimedia Brasil. “Através de políticas que oferecem, entre outras coisas, maior agência aos seus contribuidores na construção do conteúdo e da plataforma, garantia de privacidade de dados, e oferta de informações sem a mediação de algoritmos, a infraestrutura sociotécnica das plataformas Wikimedia pode ser entendida como uma alternativa ao modelo das big techs.”
